terça-feira, 17 de Novembro de 2009
domingo, 15 de Novembro de 2009
casa de sonhos
sábado, 14 de Novembro de 2009
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
silenciosas, as mães

(img. Isabelle Arsenault)
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Helder
A Faca não corta o fogo
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
lugar que me falta
domingo, 8 de Novembro de 2009
impossibilidades
Coisas que não há que há
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
Manuel António Pina
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
estado puro


tal qual o sonho valente destoutro menino:
O Poeta Aprendiz
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante
Anos tinha dez
E asas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc
O olhar verde gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho
Em bola de meia
Jogando de meia-direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
vivant!

img. daqui
"O Mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender são uma eflorescência passageira de uma criação em relação à qual não possuem qualquer sentido senão talvez o de permitir à humanidade desempenhar o seu papel. Longe de ser este papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o esforço do homem – mesmo condenado – a opor-se em vão a uma degradação universal, ele próprio aparece como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando no sentido da desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada na direcção de uma inércia sempre maior e que será um dia definitiva. Desde que ele começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e excepto quando se reproduz -, o homem não fez mais do que dissociar alegremente biliões de estruturas para reduzi-las a um estado em que elas já não são susceptíveis de integração. Sem dúvida, ele construiu cidades e cultivou campos; mas, quando pensamos neles, estes objectos são, eles próprios, máquinas destinadas a produzirem inércia a um ritmo e numa proporção infinitamente mais elevada que a quantidade de organização que implicam. Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem quando ele tiver desaparecido."
Tristes Trópicos
Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
via
domingo, 1 de Novembro de 2009
quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
50 anos, por tutatis!

para mergulhar no lustro oficial é por aqui
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
city fun
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
lustro do dia




resistentes e orgulhosas, as cidades visíveis de Amy Casey. foi por elas que nos últimos dias revisitei Marco Polo.
(img. daqui e daqui)
domingo, 25 de Outubro de 2009
o outro lado do espelho
img. Colleen Corradi Brannigan
O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho, consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece na cidade é simétrico: a cada rosto e a cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto. As duas cidades vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos."
As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Teorema
sábado, 24 de Outubro de 2009
imaterialidade
"Kublai pergunta a Marco, – Quando tornares ao Poente, repetirás à tua gente as mesmas histórias que me contas a mim?
– Eu falo falo – diz Marco – mas quem me ouve só fixa as pérolas que deseja. Outra é a descrição do mundo a que dás benignos ouvidos, outra a que correrá os grupos dos estivadores e gondoleiros nos canais da minha cidade no dia do meu regresso, e outra ainda a que poderei ditar em tardia idade, se fosse feito prisioneiro pelos piratas genoveses e posto a ferros na mesma cela com um escrivão de romances de aventuras. Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido."
img. Nora Sturges
"Embora situada em terreno seco, surge sobre altíssimas palafitas, e as casas são de bambu e de zinco, com muitos poleiros e varandas, postas a diferente altura, em andas que se sobrepõem umas às outras, ligadas por escadas de madeira e passeios suspensas..."(Zenobia)
As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
obstinação
«Para guardar os livros, Cosimo ia construindo uma espécie de biblioteca suspensa, o mais possível resguardada da chuva e dos roedores. Mas mudava constantemente os livros de lugar, segundo os estudos e gostos do momento, porque ele considerava os livros um pouco como se fossem aves e não queria, assim, vê-los fechados ou engaiolados, afirmando que semelhante espectáculo só servia para o entristecer (…).
E se, nos últimos tempos, à força de passar a vida metido entre os livros, andava um pouco com a cabeça entre as nuvens, cada vez menos interessado pelo mundo que o rodeava, agora, em vez disso, a leitura da Enciclopédia e certas palavras lindíssimas como: Abeille, Arbre, Bois, Jardin, faziam-no descobrir em todas as coisas que o cercavam aspectos totalmente novos»
«Entre os livros que mandava vir começavam a figurar até alguns tratados práticos, por exemplo tratados práticos de arboricultura (…). Aprendeu, assim, a arte de podar as árvores e oferecia os seus préstimos aos cultivadores de pomares (…). Em resumo, o amor que sentia por aquele seu elemento arbóreo soube torná-lo, como sempre acontece com todo o verdadeiro amor, até um pouco desapiedado e doloroso, um amor que fere e corta cerce, mas com a nobre intenção de fazer crescer e dar forma às árvores.»
O Barão Trepador, Italo Calvino, Teorema
( as ilustrações são de Yan Nascimbene para Le baron perché, Editions du Seuil, 2005)


































